Educação e emancipação

Aos educadores

Hoje é dia de falar da alegria de ser professor. Como em qualquer profissão, há momentos de prazer e de tristeza. Como em qualquer profissão, há aqueles que agarram a causa com afinco e aqueles que simplesmente tem um ofício. Ser professor é um ofício, e, num mundo melhor, não seria mais que um ofício. Como o mundo não anda bem, as pessoas acham que cabe a nós professores mudar o mundo. Certamente, não cabe! E talvez por isso seja tão difícil mudar a escola e a sociedade. Mas também conheço muitos professores que acham que sim, que existe uma missão… A missão é de todos. Educar é missão de todos. Luto, como lutaria se fosse médico, técnico do judiciário ou pintor de parede. E onde está a alegria? É que a luta do professor por uma sociedade melhor tem que ser por alguém e junto com esse alguém. Nenhum professor transforma bulhufas se não tiver o aluno ao seu lado. Assim, embora muitas vezes pareça, ele não está sozinho! E as trocas e recompensas por esse trabalho, se bem valorizadas por ele, não são quantificáveis. E, como estou de licença há 2 meses, começo a sentir falta. E que a força esteja conosco!!!

15/10/2012.

Sobre a desescolarização

É direito da criança não ser educada na escola? Se fizermos essa pergunta a qualquer pessoa na rua, certamente, a maior parte das respostas será negativa. Provavelmente, as várias pessoas não verão sentido na pergunta. Qualquer pessoa que afirme o direito de não ir a escola será, a partir da visão do senso comum, enquadrada como desviante e aquele que puser esta ideia em prática estará, formalmente, fora da lei. Por que não uma educação sem escola? Essa é uma questão que não está posta na sociedade. Ou melhor, é uma questão que começa a ser evocada por grupos sociais minoritários que lutam pelo direito de ensinar de forma diferenciada ao próprio filho. Este tema possui um incrível poder de interferência e desestabilização das estruturas sociais vigentes, pois afeta diretamente identidades, símbolos e formas de socialização que são pilares do mundo moderno.Para a maior parte das pessoas a escola é algo natural, “que sempre existiu” e “sempre vai existir”.  É o lugar socialmente consagrado da educação, quase um templo! Os professores podem até ser questionados, como os padres o são. Alguns dogmas também podem ser alvo de críticas, considerados atraso ou inadaptação. Mas isso não necessariamente abala a fé na toda poderosa escola. Portanto, uma questão fundamental é saber por que a escola é hoje uma instituição tão sólida que o questionamento de sua existência e de sua organização seja tão residual em nossa sociedade? Ou, que processos e condições estão na origem desta fé inconteste na escola?   Talvez fosse necessário realizarmos um exercício de desnaturalização deste processo de institucionalização. E, caminhando para a contemporaneidade, nos questionarmos: que mecanismos contribuem para a manutenção ou atualização desta fé na escola?

Retomando a questão inicial, existem formas não escolares de se educar um individuo? Onde eles estão presentes? Até onde vai o direito da sociedade de intervir na liberdade do indivíduo e da família? Ou, até aonde vai o direito do indivíduo de não se subjugar a uma norma social? A discussão acerca da educação doméstica ainda se inicia no Brasil, mas em outros países tem avançado mais intensamente. De qualquer modo, ainda é algo considerado incomum e fora de contexto na sociedade contemporânea. O caso da família Nunes é emblemático. Os pais educaram seus filhos sem a escola e, ao menos do ponto de vista da educação formal tradicional, foram bem sucedidos: os meninos tiveram um excelente desempenho nos instrumentos oficiais de avaliação de rendimento. Embora parte da sociedade não veja desta forma, os “filhos-alunos” em questão se consideram pessoas normais e defendem o ensino doméstico recebido. Contudo, para os especialistas em direito e em educação a família comete um equívoco. Os pedagogos defendem a escola argumentando que ela não é só para aprender, mas também para socializar. Os juristas defendem a lei, que, segundo eles, diz que a escola é um direito do cidadão. Na verdade, a afirmação da escola como direito está atrelada à evolução das leis brasileira sobre educação, que culminou com a sobreposição do dever sobre o direito à escola. Ir à escola hoje é uma obrigação, baseada num direito. Este texto não pretende avançar nesta querela, mas esta percepção é importante para dimensionarmos o poder da imagem da instituição escola no Brasil atual. Sua existência ou sua reformulação radical é inquestionável!

O livro “Sociedade sem Escolas”, de Ivan Illich, constitui-se um intenso exercício de desconstrução da fé contemporânea na escola moderna. Seu texto é um manifesto contra a escolarização da sociedade e em prol de um novo projeto de humanidade. Embora dialogue com uma série de teóricos, sua escrita não é acadêmica, mas sim de denúncia, instigante e persuasiva. É radical, pois vai à raiz. Ou, às raízes! No sentido em que associa a lógica de constituição da forma escolar com os problemas a ela relacionados na atualidade. No sentido em que fere cada leitor que se identifica como explorador, explorado, ambos ou qualquer coisa no meio do caminho ao longo de sua relação com o sistema escolar. Illich mostra que a instituição tem uma função social bem menos digna do que se imagina, e nos faz sentir o quanto esta faz parte de nós. Sua leitura gera reações de indignação, estranhamento e incômodo. E essa é uma de suas virtudes, mexer com a literal incorporação da forma escolar.

Que caminhos o autor escolhe para iniciar esse parcial exorcismo? Illich afirma que a escola limita o direito de aprender, pois determina o que, quando, como, com quem e pra que um indivíduo deve aprender algo. Seu surgimento criou uma delimitação entre o que é acadêmico, um status legítimo de saber, e o que não é. Faz a sociedade incorporar a necessidade de ser ensinado. A escola graduada, o modelo que temos hoje, é uma produção historicamente recente. Surge na segunda metade do século XIX e só consolida a sua universalização em meados do século passado. A forma escolar que a constitui vai incorporar os anseios por democratização e nacionalização, que incluem a ideologia de homogeneização e civilização das massas e a ordem impessoal de socialização e de poder que se consolida nos contextos urbanos ao longo do século XIX. Se todos são iguais perante a lei, o mesmo deve ocorrer perante à escola e ao conhecimento. A partir da noção de neutralidade, desenvolve-se uma hierarquização e seleção dos indivíduos previamente homogeneizados. A escola se constitui como o espaço de transmissão do conhecimento acadêmico e “legítimo” e o espaço de formação do cidadão, controlado externamente por forças que definem seus ritos e seus mitos. Portanto, o surgimento da escola moderna não pode ser dissociado da consolidação do Estado, da reconfiguração das relações indivíduo, família e sociedade, do surgimento das noções de infância, de esfera e de espaço público.

Com base nesta compreensão, Illich afirma que a escola cria na sociedade moderna uma forma de socialização escolarizada – e veja bem, a escola é vista como produtora desta realidade! Ou seja, esta forma escolar está presente nas mais variadas dimensões da vida em sociedade, indo muito além dos muros da escola. Para o autor, a escolarização é um dos pilares da sociedade moderna ocidental, e, portanto, não há a possibilidade de se fazer revolução (qualquer que seja o rumo?) sem desescolarização. Talvez seja por isso que vislumbrar um mundo sem essa escola seja tão improvável quanto promover a revolução. Na verdade, ao levantar tantas questões, Illich não defendia o fim do ensino-aprendizado institucionalizado, mas a sua total reformulação. Bradava pela desnaturalização da forma escolar vigente, pela quebra do monopólio do poder de ensinar, pela democratização do aprendizado e do acesso ao conhecimento. E via esta como a real possibilidade de surgimento de um novo homem.

[1] Este texto é produto da reflexão sobre um dos eixos temáticos do curso de questões atuais da educação, no programa de pós-graduação em educação da PUC-Rio.

10/07/2012.

Chi-chi-chi, le-le-le, viva Chile!

Impressiona a magnitude das manifestações em prol de melhorias para o sistema público de ensino chileno. Começou com estudantes de um punhado de escolas e incorporou diferentes grupos sociais. Lá, os estudantes estão lutando por uma educação pública melhor. Aqui isso é sonho, diria devaneio.

Ao menos, falar de educação está na moda no Brasil. Assim como ocorre com “preservação do meio ambiente” e “promoção da cidadania”, todos discursam pela melhoria da educação. Mas quem luta por isso no Brasil? Os estudantes? A população? As ONGs? O que temos são alguns professores – a minoria aguerrida que se mobiliza e faz greve – lutando por melhores salários e condições de trabalho, o que, indiretamente, resulta em melhora na educação.

Será que estamos em situação bem melhor que o Chile? Ao ler os textos abaixo, vemos que os contextos se assemelham. Mas as ações e reações … O que faz 400 mil estudantes saírem às ruas lá? O que nos faz ignorar a situação da escola pública e a luta inglória dos professores daqui?

Por que lutam os estudantes chilenos:

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18063

Retrato urgente de la lucha de los estudiantes chilenos:

http://www.rebelion.org/noticia.php?id=133514

A Revolução dos Pinguins – documentário sobre os protestos estudantis de 2006:

http://www.youtube.com/watch?v=AtbeXLVns5A&feature=related

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s