Transporte para um Brasil menos injusto

    Foto retirada da página de Daniel Carvalho (http://www.facebook.com/danielguitarra)

Foto retirada da página de Daniel Carvalho (http://www.facebook.com/danielguitarra)

Passeata passe livreVemos hoje uma verdadeira insurgência protagonizada pela causa do transporte público. Para a grande mídia em geral e para os pensamentos conservadores não passam de jovens arruaceiros que merecem repressão da polícia. Pode-se mais uma vez perder a oportunidade de debate daquilo que está no âmago da questão: a exploração e o desserviço prestado aos cidadãos/trabalhadores pelos sistemas de transporte Brasil a fora. Os mesmos que defendem o porrete contra os manifestantes viajam a Londres e a Paris e voltam elogiando a qualidade do transporte urbano de lá. Mas se esquecem de uma diferença fundamental para o nosso: naquelas cidades o transporte é público e estatal, voltado para promover a mobilidade dos cidadãos/trabalhadores com vistas a gerar mais mobilidade, eficiência produtiva e, porque não, bem estar. Além da incontestável maior eficiência e qualidade, o transporte de lá é mais acessível. Em Paris, um bilhete unitário custa 1,70 euro (R$ 4,85) e um carnê com 10 sai por 13,30 euros (R$ 37,90). Mas se o cidadão paga o passe mensal, pode andar a vontade de ônibus, metrôs e trens por 65,10 euros (185,53) – http://www.ratp.fr/fr/ratp/c_20586/tous-les-titres-et-tarifs/. Aqui no Rio de Janeiro, se o trabalhador pagar 60 passagens de ônibus por mês gastará 177 reais (a R$2,95) e de metrô 210 reais (a R$3,50). Nosso salário mínimo é de 678 reais, enquanto o francês chegou a R$ 4063,15 (http://expresso.sapo.pt/salario-minimo-em-franca-sobe-para-142567-euros=f735665). As empresas de ônibus, trem e metrô cariocas introduziram os cartões eletrônicos nos quais se pode carregar o quanto quiser de dinheiro que o desconto é zero, pois isso serve na realidade para reduzir custos operacionais. E é aí que está a essência do problema: o transporte público é privado e voltado para a exploração do usuário. E como se constitui cada vez mais um monopólio, devido à repressão ao transporte alternativo (que no Rio ainda tem o agravante de ser controlado pelo poder paralelo), as empresas agem como querem. A situação piora, quando o prefeito eleito é financiado por essas empresas e frauda um edital de concessão para mantê-las com o monopólio que já detêm a mais de 40 anos (http://oglobo.globo.com/rio/apenas-quatro-empresarios-concentram-um-terco-do-transporte-rodoviario-no-rio-8417193). Pelo menos há 20 anos, todos os prefeitos eleitos recebem contribuições de empresas de ônibus na cidade. O dinheiro doado pelas empresas é retornado em forma de generosos aumentos acima da inflação. Ou seja, neste esquemão, os trabalhadores financiam a campanha de certos grupos políticos pagando o transporte público-privado. Essa cumplicidade, que não é exclusividade carioca, acaba com qualquer isenção do poder público em sua tarefa de regulação do sistema. Milhões de cidadãos/trabalhadores passam de 4 a 6h por dia em deslocamentos e ainda são taxados pelo discurso hegemônico positivista como ineficientes etc. Assim, a luta pela redução do custo da passagem representa algo muito maior. É por uma necessidade imediata, mas contesta e desestabiliza uma ordem econômica e política extremamente exploratória, que envolve a cooptação do poder público pelo setor privado e mostra que o problema é algo a mais do que “culpa dos políticos”. Quem sabe parando as ruas a luta pode desembocar em um debate que avance para o questionamento desta lógica injusta de estruturação do transporte público?

Guilherme de Alcantara

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